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Julio Cortázar Um tal Lucas Fim do Jogo

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OS ABISMOS DELIRANTES DE CORTÁZAR

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  Numa tarde de fevereiro de 1947 Lucio Medina foi ao Gran Cine Ópera no centro de Buenos Aires assistir um filme do cineasta ucraniano Anatole Litvak. O programa anunciava um noticiário, um desenho animado e o filme de Litvak. Enquanto esperava pelo começo da projeção percebeu algo estranho no público que afluía à sala. Tratava-se de dezenas de senhoras preponderantemente obesas, que nada tinham a ver com a plateia habitual do cineasta ucraniano, e que falavam com excesso de gestos e submetiam suas crianças “a um regime de beliscões e advertências”.

  Quando as luzes se apagaram e o pano subiu, Lucio defrontou-se no palco com uma imensa banda feminina e um cartaz onde se lia “BANDA DAS ALPARGATAS”. Tratava-se de uma banda desastradamente desafinada e que a cada marcha militar que executava era saudada pelo público com urros e aplausos intermitentes. Medina teve vontade ao mesmo tempo de rir aos berros, xingar todo mundo e ir embora. Mas, fiel ao velho Anatole, esperou a banda se retirar de cena e depois assistiu ao filme.

  Mais tarde, ao relatar o ocorrido para o seu amigo Julio Cortázar, confessou ter entendido tudo aquilo como “um momento de realidade que lhe parecera falsa porque era a verdadeira” e que “parou de sentir-se escandalizado por se ver cercado de elementos que não estavam em seu lugar, porque na própria consciência de um mundo alternativo entendeu que aquela visão podia se prolongar até a rua, ao seu terno azul, ao programa da noite, ao escritório da manhã, ao seu plano de poupança, ao veraneio em março, à sua amiga, à sua maturidade, ao dia da sua morte.”  

  O relato, parte do conto “A banda” do livro “Final do jogo”, o primeiro publicado pelo escritor argentino Julio Cortázar em 1956 e reeditado agora pela Civilização Brasileira por ocasião dos seus cem anos de nascimento, revela, já na sua primeira manifestação literária, uma das centelhas estéticas mais presentes na obra do escritor argentino: os elementos que não estão em seu lugar e a consequente instalação de um clima de irrealidade e insanidade.

  O livro, composto de dezoito contos, mostra um escritor bastante virtuoso mas ainda em busca de uma identidade própria. Arrisca em vários gêneros, do policial (O ídolo das Cíclades e O motivo) ao romântico (O rio e Final do jogo). Mas o que perpassa toda a obra é um tom memorial, de evocação da infância e de uma Buenos Aires que já não existia mais.

  “Um tal Lucas”, publicado originalmente em 1979, ao contrário de “Final do jogo”, revela um Cortázar navegando de maneira madura e homogênea naqueles temas que o marcaram como um dos maiores escritores de todos os tempos: os atalhos do cotidiano que dão em pequenos abismos repletos de humor e non sense, um surrealismo todo particular manifestado na forma magistral como confecciona suas imagens e um estilo elegante, rítmico e inteligente.

  Em 48 pequenos relatos, micro contos e contos, o livro traz pequenas obras primas como “Lucas, sua nova arte de fazer conferências”, onde o personagem, ao fazer uma palestra sobre Honduras, depara-se com a mesa que o separa da plateia e começa a divagar sobre este “obstáculo mais detestável que qualquer outro (…) que mais parece um cachalote obsceno.” Em “Caçador de crepúsculos” planeja filmar o que chama de crepúsculo definitivo e exibi-lo antes de um longa-metragem com a legenda “Informamos ao público que além do crepúsculo não acontece absolutamente nada e por isto lhe recomendamos agir como se estivesse em casa e fazer o que lhe der na telha(…)”.

  Estes dois relançamentos deixam claro que o tempo resistiu à obra de Cortázar. E mais, que ela tornou-se urgentíssima. Que venham mais cem anos do mestre. 

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                                                 Amor 77

 E depois de fazer tudo o que fazem, os dois se levantam, tomam banho, passam talco, passam perfume, se penteiam, se vestem e assim vão voltando progressivamente a ser o que não são.”


                                                       ●••●


                                   Destino das explicações

 ”Em algum lugar deve haver um depósito de lixo onde estão amontoadas as explicações.

  Só há uma coisa preocupante neste exato panorama: o que vai acontecer no dia em que alguém conseguir explicar também o depósito de lixo.”



Matéria para (Ilustrada) Folha de São Paulo☂ http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/10/1535043-obra-de-julio-cortazar-nao-so-resistiu-ao-tempo-como-e-urgentissima.shtml

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EXPEDIÇÃO AO PESADELO ESTÉTICO

  Percorrer a exposição “Made By… Feito por Brasileiros” equivale a andar em meio a uma selva pálida e retorcida cujas árvores, os animais e os rios estão todas mortos e o único sinal de vida é um ruído neurótico e intermitente de uma sirene que ecoa através dos corredores do antigo prédio do Hospital Matarazzo. A aridez, a extrema sisudez, o previsível e pretenso engajamento político e a absoluta falta de beleza, marcas registradas da arte contemporânea brasileira, invadiram todas as dependências do imóvel construído no início do séc. XX e conseguiram ofuscar até a imponente arquitetura do antigo hospital.

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  A tragédia começa já na entrada, na parte externa. Uma armação de madeira pintada de vermelho e içada ao céu como se fosse um gigantesco telhado disforme se opõe à fachada clássica do edifício. O contraste esdrúxulo, absolutamente conceitual, acaba fazendo o papel de uma hostess que parece nos dizer: benvindos ao Pesadelo Estético.

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  Andando pela parte externa surgem as primeiras “instalações- penduricalhos” em árvores. Numa delas o “artista” pendurou em seus galhos colares gigantescos, num estilo que mistura cenografia de teatro infantil com objetos cênicos de escola de samba do grupo B.  Em outra, foram colocadas esculturas de crânios humanos de cujas bocas saem longas e finas ripas de madeira. O resultado estético é constrangedor. Provocam uma nítida sensação de que as árvores estão envergonhadas e que não veem a hora desta invasão à sua extraordinária beleza natural terminar.

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  Como era de se esperar, a situação do lado de dentro do prédio abandonado há mais de 20 anos é de deterioração: paredes manchadas, portas envergadas, pisos imundos. Mas é exatamente este tipo de ambiente que a arte contemporânea brasileira se sente à vontade para exibir toda a sua anêmica exuberância cinzenta. E dá-lhe entulho. Uma sala com um monte de pedras e alguns jarros de barro quebrados. Numa outra, só um montinho de pedras. Agora um exército de escombros postos de pé. É a feiura minimalista fazendo história na Expedição ao Pesadelo Estético.

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  Passados trinta minutos de agonia, paro pela primeira vez e olho para os rostos dos visitantes. Não há o mínimo resquício de alegria, prazer, fruição. Parece que tudo nesta expedição tem que ser encarado de uma forma muito séria e tensa. Parece dizer o tempo todo que “a vida, minha gente, é uma merda, uma eterna e indestrutível merda cinzenta”.

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  Mas quando tudo parecia irremediavelmente perdido e o pesadelo consumado, surgiu, dos porões de uma das edificações, a obra CHUVA (Lavanderia – Demolição Líquida). A instalação de Arthur Lescher é como uma gota de sonho transcendente no meio de um deserto maçante, cinzento e sem graça. Onde funcionava a lavanderia do Hospital, Arthur criou um mecanismo que provoca uma chuva incessante a qual podemos olhar através de pequenas janelas do andar de cima. Além de ser uma obra em absoluta consonância com o espaço, Demolição Líquida reproduz a sonoridade de uma tempestade que, por alguns minutos, anulou os intensos e permanentes ruídos neuróticos que permeiam a exposição.

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  A sensação que fica após uma hora e meia desta expedição é que, tirando esta chuva, nenhuma outra sensação me foi provocada. E que parece ser este mesmo o propósito dos “artistas” que estão vinculados à chatíssima arte contemporânea brasileira. Provocar irritação, desprazer e afastar da arte as pouquíssimas pessoas que ainda gostam de arte neste país.     

  


  http://www.feitoporbrasileiros.com.br/



Edição e fotos: Isabela Johansen

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NÃO EXISTE ARTE NA 31ª BIENAL DE SÃO PAULO

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  Quando às vésperas da inauguração da 31ª Bienal de Artes de São Paulo um grupo de mais de 50 “artistas” pediram à Fundação Bienal que recusasse a verba do governo israelense destinada à mostra, percebi que algo sinistro e monstruoso estava sendo tramado nos bastidores da tradicional exposição. Achei estranho que uma causa eminentemente política – com vários vieses e ângulos e historicamente complexa -  estivesse se sobrepondo ao evento cuja finalidade última é a arte. E mais: que estes mais de 50 “artistas” já tivessem uma posição fechada de antemão eliminando a opinião de todos os outros expositores que eventualmente discordavam daquela posição. Em suma, vi no episódio, algo suspeito e absolutamente autoritário.

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  A minha suspeita foi confirmada quando fui visitar a exposição no último fim de semana. O título, COMO ENCONTRAR COISAS QUE NÃO EXISTEM, é absolutamente didático. Porque nos três andares do prédio onde estão espalhadas as “obras” têm várias coisas que não existem. Mas a falta de uma delas é patética e emblemática: não existe arte. Por mais que sejamos complacentes com os novos conceitos de arte moderna, o que existe ali, definitivamente não é arte.  Tomando um conceito mais clássico mas largamente aceito até nossos dias que define arte como “uma criação humana com valores estéticos, como beleza, equilíbrio, harmonia, que representam um conjunto de procedimentos utilizados para realizar obras” ou até com definições de arte mais recentes como a arte contemporânea, que abandona suportes tradicionais, como a pintura e a escultura, e investe nas performances e instalações, e comparando-o com os cerca de cem trabalhos expostos, é fácil concluir que o critério usado pelos cinco curadores que elencaram as obras, não foi, nem de longe, norteado pela primeira definição e usou a segunda como álibi para legitimar uma avalanche de equívocos.

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  A grande maioria dos expositores, tratados no catálogo como artistas, na verdade, são ativistas políticos. Não tem a mínima noção de estética, harmonia, beleza, de nada que lembre arte. Tanto que a “obra” que mais vem causando polêmica, “Nem boca fechada, nem útero aberto”, do coletivo “Mujeres Criando” é de uma pobreza estética e visual exemplares, diria, algo horrível do ponto de vista de cor, acabamento e forma. Lembra, como muitos outros “trabalhos” um tipo de “arte” que vemos em exposições de alunos do 1º Grau. A polêmica em questão é porque a “obra” é acintosamente favorável ao aborto, elemento que se dá através da audição, com fones de ouvido, de depoimentos de mulheres que fizeram abortos em clínicas clandestinas. Funciona como se fosse um comício político ou um debate – com um só lado da questão, é óbvio.      

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  Tudo ali, aliás, funciona como se estivéssemos nos corredores e salas de um partido político de esquerda. Os personagens a serem execrados são a igreja católica e o capital. Em outra “obra” que vem causando polêmica, Errar de Deus, o público senta-se num micro teatro de arena e ali escuta uma interminável lenga-lenga marxista sobre a relação entre Deus e o capital.  

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  O clima nos três andares é tão terrivelmente opressor e feio que ao ver as árvores do Parque Ibirapuera através das vidraças tive uma epifania. Tudo é rigorosamente desprovido de transcendência, prazer, humor, leveza. É a histeria da sisudez que reina absoluta.  

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  Além do “clima comício político” que domina setenta por cento da exposição, temos também o “clima feira de ciências de colégio de segundo grau”. Trata-se de uma sequência de armários envidraçados com objetos absolutamente desinteressantes expostos em seus interiores. A seguir, temos uma exposição de pedras com um professor explicando a origem, as características e a função de cada uma delas. 

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  Uma outra “instalação” ocupa grande espaço e chama a atenção pela total falta de vínculo com qualquer coisa que remotamente lembre arte. Trata-se de uma série de maquetes que ilustram um projeto chamado “Escola Moderna”. Esta “instalação” nos faz viajar para o interior de um Congresso de Educação. 

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  Para completar o excremento que é a 31ª Bienal, temos a ação politizadora dos monitores. Passei perto de três deles. A primeira discursava sobre a irrelevância e o erro que é o voto nulo, tendo como base uma foto (horrível, como tudo que vi ali) de um militante em uma manifestação de rua. O segundo divagava sobre a relação entre a memória e a luta dos trabalhadores, tendo como pano de fundo uma “obra” que tinha uma corda colada num pano azul. A terceira refletia sobre a vergonha que é morarmos num país onde o aborto não é legalizado, na “obra” já mencionada aqui.

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  Depois de uma caminhada infernal de quase duas horas sem direito a um mísero centímetro de arte, me deparei com o Inferno propriamente dito: um vídeo que se passa em frente ao Muro das Lamentações em Jerusalém e que denuncia a presença do capital em tudo que o circunda. Na marca das águas de coco, nos relógios com logotipos de multinacionais, e etc. Em suma, a 31º Bienal é um indício didático do que já está acontecendo no Brasil. E de coisas que estão em vias de não existirem mais, como a democracia e a liberdade.

 

 

☜ Bienal: http://www.31bienal.org.br/

☞ Transcendência:

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Fotos e edição: Isabela Johansen

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ESTUDO CONSISTENTE REAFIRMA IMPORTÂNCIA DA GERAÇÃO BEAT

Perguntado certa vez sobre o que achava da literatura beat, o escritor norte-americano Gore Vidal respondeu com uma frase sonora e contundente: “That’s not writing, that’s typing” (isso não é escrita, é datilografia). O “slogan”, uma crítica à prolixidade da prosa beat, tornou-se munição nas hostes daqueles que durante este mais de meio século de Geração Beat a detrataram e tentaram minimizar sua importância no panorama da literatura americana e mundial. 

Em Os Rebeldes : Geração Beat e Anarquismo Místico, o poeta, tradutor e escritor Cláudio Willer retoma a polêmica e afirma, no último parágrafo das 190 páginas de seu livro que a influência beat contribuiu para a abertura em sociedades contemporâneas “vencendo o descrédito promovido por críticos burocráticos e sumidades acadêmicas”.

O livro é um estudo consistente sobre o movimento iniciado nos anos 40 e definido por um de seus principais mentores, Allen Ginsberg, como “um grupo de amigos que trabalharam juntos em poesia, prosa e consciência cultural”. E não deixa dúvidas de que seus integrantes tinham um embasamento intelectual bastante apurado e sabiam muito o que estavam fazendo e onde queriam chegar. 

Dentre as diversas abordagens que Willer faz sobre os beats -  influências poéticas e filosóficas, origens sociológicas, viagens, loucuras, iluminações, opções políticas, sexualidade, drogas - chama atenção aquela que tira o budismo do principal foco de religiosidade do grupo. 

Segundo ele, comentaristas tendem fixar-se na relação dos betas com o budismo e “são deixadas de lado outras correntes, antecedentes e influências do grupo, desde os antigos gnósticos dos primeiros séculos d.C, passando pelos adeptos do Espírito Livre (seita medieval que tinha como um de seus postulados “nada é pecado exceto aquilo que é pensado como pecado”) até os contemporâneos.” E é exatamente esta mescla heterogênea de culturas religiosas que recebe o nome de anarquismo místico.  

Os protagonistas da narrativa de Willer são os poetas e escritores Jack Kerouac e Allen Ginsberg.  Numa espécie de dupla biografia que corre paralela ao livro, a história da relação entre os dois vai sendo contada desde o momento em que Ginsberg levou os originais do primeiro livro de Kerouac (“Cidade pequena, cidade grande”) a editores que conhecia, até o fim dos anos 60, quando Kerouac isolou-se negando a fama e a politização do movimento enquanto Ginsberg tornava-se ativista e divulgador da contracultura. 

Em seu último pronunciamento, um artigo intitulado “Depois de Mim, o Dilúvio”, de 69, Kerouac disparou sua metralhadora giratória em direção a Ginsberg e à contracultura e negou ser “o grande pai branco e precursor intelectual que desovou um dilúvio de radicais alienados, manifestantes contra a guerra, vencidos na vida, hippies e até beats”.   

É typing ou writing? 



Matéria escrita para Folha de São Paulo:
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/08/1504480-critica-estudo-consistente-reafirma-importancia-da-geracao-beat.shtml

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DEMETRIOS GALVÃO: O SURREALISMO QUE VEM DE TERESINA

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O autor do livro de poesias “Insólito” foi um dos autores focados em matéria que escrevi e a Ilustrada publicou no dia quatro de maio:

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/05/1272961-jovens-autores-se-enredam-por-um-novo-surrealismo.shtml

Em entrevista exclusiva  Demetrios fala sobre os seus métodos criativos, da aridez de Teresina, do livro “Insólito”,da sua visão de surrealismo e de suas influências. A seguir, um poema extraído de “Insólito”.      

 

1.  Como é o seu processo criativo?  Usa ou já usou algum aditivo para provocar inspiração?

 

Meu processo de escrita é muito fragmentado, quase nunca o poema sai de uma vez. Geralmente estou lendo algo ou assistindo algum filme e visualizo uma imagem, daí anoto. Daqui a pouco ouço uma música ou vejo uma cena na rua e outra ideia aparece. Vou anotando e vou procurando algumas palavras não usais. Quando já tenho um conjunto de frases-imagens vou montando o texto e organizando o ritmo da poesia. Me mobilizo pelas imagens que posso construir, articulando elementos de universos distantes. É um exercício de dar densidade à linguagem e de, dilatar o mundo.

Quanto à ingestão de substâncias, só álcool mesmo. Mas, geralmente quando escrevo envolvido em embriaguez, revisito depois e dou uma arrumada. Não trabalho no esquema de escrita automática. Geralmente tomo elementos caóticos para desenvolver minha poesia, mas elaboro o texto por um tempo. Não creio na inspiração absoluta, pois acredito que a escrita se desenvolve, na medida em que criamos uma intimidade com a linguagem. É uma dinâmica de sensibilidade e linguagem, de olhar e de elaboração do que capturamos pelas antenas do corpo.

 

2. “Insólito” é repleto de “sopros surrealistas”. Como, quando e porque  incorporou a estética surrealista à sua poesia?

Comecei a exercitar uma estética surrealista por volta de 2002, mas intensifiquei de 2004 em diante.

Em 2002 comecei a ler o Roberto Piva e pirei com a escrita dele, comecei a procurar tudo que ele tinha publicado e o que estava disponível pra comprar ou pra baixar na net. Chegando nele fui encontrando o universo surrealista e seus escritores como por exemplo, Jorge de lima, Murilo Mendes, André Breton, Claudio Willer e Vicente Huidobro. Esse último, um grande mestre pra mim.

Ainda em 2002 conheci o Sérgio Cohn na Bienal Internacional do Livro do Ceará e nessa ocasião ele me presenteou com o livro do Afonso Henriques Neto, Ser Infinitas Palavras, e com o telefone do Piva, li loucamente o livro, ao passo que comecei a ligar para o Piva aos domingos e a conversar sobre poesia, vivências, autores, leituras, etc. Esse contato com o Piva me esclareceu muita coisa e me ajudou a compreender melhor o surrealismo.

Seguindo esse caminho conheci a poesia do Floriano Martins e um livro porrada que ele organizou, chamado O Começo da Busca: o surrealismo na poesia da América Latina, nesse livro tem poemas maravilhosos do Enrique Molina, Aldo Pellegrini, Octávio Paz, dentre outros.

A estética surrealista me fascina pelo radicalismo no campo da linguagem, pelo que a poesia onírica mobiliza, pelos mundos que ela cria e pela experiência do estranhamento e  pela inquietação que causa no leitor. Acho tudo isso muito sofisticado e violento. Pois, os surrealistas não mobilizam a linguagem à toa para produzir mais do mesmo. A poesia surrealista é uma tecnologia que serve para esticar o mundo – fabricar outras possibilidades para a experiência sensorial e social.

 

3. Em vários poemas escutei uma voz romântica dilacerada. “Insólito” percorre o caminho de uma história de amor única ou são várias?

 

Nunca ninguém me perguntou sobre isso e por isso achei sua pergunta instigante. Parece que você me leu direito… kkkkkk…

Rapaz, o livro começa com a ressaca de um relacionamento, é o capítulo “a gaveta guarda uma coleção de pedras”, e esse é o título também de um poema, talvez o mais porrada dessa parte.

Penso que os dois primeiros capítulos têm uma pisada mais forte e nos dois seguintes há uma fluidez maior, os poemas estão mais encorpados e apaixonados, principalmente no terceiro capítulo “escorpião na casa de capricórnio”. Os poemas dessa parte foram escritos no espaço de 2 meses, foi o início de namoro com a minha atual companheira. Portanto, são poemas que eu tenho um carinho muito grande, há neles um exercício onírico e sexual muito intensos, estou imerso neles de forma latente. Não me recuso a aparecer nos meus textos, não tenho nenhum problema com a primeira pessoa.

Perceba que as epígrafes que abrem o livro são senhas importantes:

1ª - “As rochas não pesam mais/ que nossas sombras” — o que carrego é um fardo (não necessariamente em todos os poemas dos 2 primeiros cap.)

2ª- “morremos sempre./ o que nos mata/ são as coisas nascendo” – renovação, fôlego novo, nova velocidade no corpo.

O meu cotidiano e as coisas que vivo e sinto são matérias indispensáveis para a minha poesia. Gosto de poesia com carne, tecido, músculos, sangue e consequentemente, com as emoções que atravessam o corpo, que o dilaceram, que o marcam e também que trazem felicidades inebriantes, loucas, transbordantes, sem limites.

 

4. Os poemas foram todos escritos em Teresina? Se sim, seria Teresina uma cidade com timbres psicodélicos/surrealistas? Como definiria poéticamente Teresina?

 

Quase todos eles foram escritos em Teresina, com exceção de: anotações sobre a cidade alheia e não passamos de dois cretino (São Luis), a previsão do tempo é uma falácia (Fortaleza) e cartões-postais do fim do mundo(Recife).

A temática de cidade é recorrente em minha poesia, inclusive é tema de minha dissertação de mestrado na relação História, Cidade, Fotografia e Teresina.

Sou insatisfeito com a minha cidade e adoro a música de uma banda daqui que diz o seguinte “não me acostumo com o sol da minha cidade, não me acostumo com o sol….”. Acho esse refrão legal, porque não me acostumo definitivamente com ela, principalmente porque suas potencialidades não são exploradas. O descaso do poder público é terrível e a elite dirigente é totalmente sem capital cultural. Brinco sempre dizendo que Teresina é “a decrépita província teresinense a cidade Frankstein”. É uma forma que encontrei para tirar onda e sempre repito isso onde vou. Digo que essa situação só será resolvida quando acontecer “um pandemônio léxico no arquipélago parabólico da cidade”. Isso está nos meus poemas. Problematizo sempre o meu lugar.

Mas terminei reinventando Teresina e criando minha cidade subjetiva com os dispositivos do surrealismo, em uma relação de amor e ódio, porém com um pouco mais de ódio , digo que ela é Frankstein não porque sejam feios os seus espaços, mas porque é terrível a mentalidade das pessoas que fazem a cidade. Ela poderia ser bem mais agradável e cultural.

Alguns poetas daqui têm uma relação difícil com a cidade, dentre eles Torquato Neto, Paulo Machado, Rodrigo Leite e outros mais.

A poética de Teresina é árida, sufocante. É preciso ser tático para dar a volta nela.

 

 

O caracol carrega em sua casa

um ninho de silêncio no lodo dos ponteiros:

parênteses que acolhem um corpo gelatinoso e

servem de despensa para guardar minutos quebrados

:

os pés das árvores seguem seu curso se alimentando

dos cacos dos signos. 

( do livro Insólito de Demetrios Galvão).  

 

 

     

 

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A BULGÁRIA DE AUGUSTO GUIMARAENS

Autor do livro “fui à bulgária procurar por campos de carvalho” Augusto Guimaraens foi um dos três escritores que protagonizaram a matéria que a Ilustrada publicou no dia quatro de maio :

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/05/1272961-jovens-autores-se-enredam-por-um-novo-surrealismo.shtml

 

Segue a entrevista na íntegra que fiz com Augusto sobre o seu livro e o surrealismo. A seguir, um trecho de ‘fui à bulgária procurar por campos de carvalho” .

 

1. Como é o seu processo criativo?  Usa ou já usou algum aditivo para provocar  inspiração?

 

Meu processo criativo é até bem rigoroso para quem escreve por colagem de textos em uma técnica combinatória por associação de ideias. Escrevo lendo outros livros, são eles que costumam me inspirar; meus psicotrópicos são os livros, uma biblioteca de aditivos. Tenho arquivos de textos a que chamo de “arqui-vivos” em que vou armazenando textos a serem combinados mais tarde. Às vezes estes textos são selecionados por temas ou apenas por datas. A imagem que tenho da literatura é desta biblioteca mental com livros flutuando à deriva, todos esperando para serem folheados; uma infindável biblioteca com todos seus livros deitados horizontalmente para poderem respirar. Escrevo muito estimulado por outros textos nesta relação de intertextualidade tensa em que minha escrita se coloca. Já tentei escrever com aditivos outros também, mas tiravam minha atenção. Quando preciso de um arrebatamento súbito recorro ao vinho e toco nos ombros de Dionísio. Quando bebo vinho (Dionísio engarrafado) me lembro do Zé Celso Martinez (que inclusive escreveu a orelha do meu primeiro livro de poesia, “Poemas para se ler ao meio-dia”, de 2006) me falando: “Augusto, vamos do lirismo ao delirismo, do lirismo ao delirismo!”. Me lembro do que o Zé escreveu no prefácio deste meu primeiro livro: “Os poetas podem matar os cientistas e vice-versa, mas certos poetas podem contaminar positivamente a ciência, aí então a ciência vira poesia”. O vinho me serve mais para escrever poemas, já a prosa precisa de um pouco mais de um “olho armado” no sentido de estar sempre alerta para a construção de cada frase. No entanto, neste meu primeiro romance “Bulgária” me utilizei das duas técnicas, a de um olho mais engatilhado para a atenção e a de um olho mais em estado selvagem a aproveitar mais os acasos da linguagem. Procurei por esta terceira margem entre a prosa e a poesia. Busquei neste meu primeiro romance uma insólita Bulgária inventada por Campos de Carvalho e também este entrelaçamento entre prosa e poesia, entre poesia e ciência. Foi esta uma procura em que só mesmo sua busca já era suficiente para justificá-la e me fazer sentido. 

 

2. No seu “ fui à bulgária procurar por campos de carvalho” a palavra/conceito Bulgária aparece revestida de dezenas de significados. Qual destes significados ficou mais latente para você após terminar o livro?

 

A Bulgária foi se mostrando aos poucos para mim ao longo do texto que escrevia. No final pude entrevê-la como um lugar mental. A verdadeira Bulgária não existe mesmo, nenhum mapa consegue colar suas cartografias naquela realidade, nenhum GPs a obtém. Este é um país do qual não podemos tomar posse senão pela busca, é preciso ser um buscador para lá aterrissar. A Bulgária criada por Campos de Carvalho é uma terra de insones, um lugar sem bordas ou cabelos por onde se segurar. Enquanto escrevia o livro a Bulgária foi realmente se revelando para mim como um filme ou uma fotografia, eis aqui a primeira imagem que tive: a Bulgária não poderia caber dentro de um só espelho; ela é uma tradição de peso livre. Por carregar uma geografia distante com muitas verdades em estado latente, a Bulgária pode ser descrita como uma terra vertical que, quando quer, reinventa seus próprios limites. A Bulgária brilha na infância da linguagem, ela é um descobrimento em carne viva, tão mais estranha quanto real. Trata-se de um país nômade inimigo dos turistas, um país de metamorfoses, por isso pode ser assim representado como: um trauma milenar, território explodido de seu mapa, um vulcão que se esqueceu de acontecer, um continente evanescente, um arquipélago errante, pátria portátil, guarda-chuva ao avesso, o chão flutuante das perguntas sem soluções, filha do quase acontecimento, arqueologia do presente, presente pós contemporâneo, passado experimental, naufrágio sem mar, estrela pegando fogo contra os mapas mortos pregados na parede.

O primeiro impulso que me fez escrever este livro foi me perguntar: por onde andava Campos de Carvalho durante a Copa do “Mundo” de 1994? Como o escritor teria se sentido ao assistir esta “ilustre” seleção búlgara vencendo sua primeira partida em uma Copa e além do mais desafiando reiteradamente a lógica, já que quase foi a campeã, a nação mais comprovadamente existente na face da terra! Campos de Carvalho morreu em 1998, então, certamente viu todos os golpes mágicos do atacante Histo Stoichkov e sua camisa 8 – a representar o símbolo do infinito – contra os professores de lógica do mundo inteiro. O jogador que utilizava a camisa 8 do infinito carregava literalmente aquele tão trágico país nas costas, ou naqueles ombros porosos de “estrela” do time. Fiquei imaginando uma conversa entre Stoichkov e Campos de Carvalho e daí começou a “sair” o livro, no bom sentido, é claro. Minha ideia então foi colocar este monte de filósofos transtornados discutindo sobre a inexistência da Bulgária ou sobre a inexistência do próprio ser humano neste mundo conturbado de hoje, neste século XXI, época em que Campos de Carvalho dizia que o mundo já não faria mais sentido. Mesmo assim, o mínimo de sentido ainda faz, e o mais importante é saber que tudo que podemos nomear já não poderá mais nos ferir. O mar não tem mesmo cabelos por onde se segurar, não tem. Sófia, cidade rodeada pelo Danúbio Azul (ao sul) e (ao norte) pelo Mar Morto, comprova esta tese bravamente. Mesmo que a Bulgária não exista, ainda assim continuariam a existir os búlgaros Campos de Carvalho mesmo sabe de sujeitos que usam camisas de vênus e nem por isso são astrônomos ou fazem contrabando com aquele lírico planeta. Pelo menos, esta também é a tese do maior linguista vivo atualmente, o búlgaro Tzvetan Todorov. O que o linguista Todorov supostamente não observou é que curiosamente a etimologia da palavra “búlgaro” vem da época dos bogomilos: a expressão bugres vem de búlgaro, não gostavam deles nem um pouco na Idade Média, me confidenciou outro dia o bulgarólogo Claudio Willer Balakov em um agradável chá metafísico em que bradava: “Dilma Rousseff indo à Bulgária visitar parentes, eis aí o insólito em carne viva. Não existem as cidades, são nossas viagens que criam roteiros e mapas de superfícies luminosas. As cidades não existem, só os encontros são reais, as prolongadas pessoas capazes de transformar qualquer lugar em praia deserta ao amanhecer”. Muito mais surpreendente do que qualquer bulgarólogo é a notícia que saiu no fim do ano passado sobre alguns arqueólogos contemporâneos financiados pela National Geographic que descobriram fósseis búlgaros que são, aparentemente, os mais antigos de todo o continente Europeu. Portanto, Campos de Carvalho estava certo. Agora nós temos uma situação simetricamente oposta; agora a questão talvez se inverta: quem não existe são eles, a maioria de todos os europeus!

 

3. Como você definiria a prosa de Campos de Carvalho ? Considera-o um lúcido ou um louco? Ou ambos?

 

A prosa de Campos de Carvalho é, definitivamente, a de uma louca lucidez. Ele consegue, como ninguém, retorcer a lógica e revirá-la sem que nenhuma incoerência gramatical seja realizada. Ele escreve tão claro que sua claridade já é nebulosa ao ponto de roçar os pontos extremos da razão ocidental. Assim, sua prosa não deixa de carregar uma crítica velada ou nem tão velada assim ao iluminismo. Os holofotes iluministas cegam, quando se tentas iluminar desesperadamente um raciocínio as zonas de sombra desaparecem, e são elas normalmente que nos permitem entrever um pensamento complexo. Não existe complexidade possível sem que floresçam as tensões de cada sentido gerado a partir daí. Não existe uma realidade permanentemente viva sem que uma alteridade radical questione a tradição e gere suas possíveis rupturas; não existe nesta realidade viva um sentido coerente embalsamado logo no ponto de saída ensimesmado em um mapa prévio organizador. O que os holofotes iluministas não compreendem é que real e sonho (luz e sombra) são vasos comunicantes. Impossível e improdutivo isolá-los ou querer ser realista ou puramente onírico ou originalmente iluminista ou obscurantista; as dualidades são complementares e uma alimenta a outra. Por isso, aos 16 anos Campos de Carvalho matou seu professor de lógica. Por isso considero Campos de Carvalho o mais insólito e contestador dos escritores brasileiros, aquele a que chamo de escritor do “risco cultural”: porque com ele uma cultura sempre está em risco, o novelo do mundo sempre pode desenrolar quando menos se espera, nunca as peças do real se articularão facilmente sem que sejam postas à prova antes. Aqui me ecoa um verso imprevisto de Julio Cortázar que me parece feito para Campos de Carvalho: “quanto mais banal, mais estranho”. Parece isto mesmo o que Campos busca fazer: desentranhar um estranhamento daquilo que parece mais corriqueiro e cotidiano, mostrando que nem o mais banal dos banais é tão ordinário ou natural quanto parece ser.  Por isso Campos de Carvalho escreve uma prosa de louca lucidez. Este escritor renunciou seu primeiro nome Walter para que pudesse viver seus muitos tantos “eus” a partir de seu sobrenome Campos de Carvalho. Este escritor que “nasceu” em Uberaba, mas bem poderia ter sido germinado no Mar de Espanha, lugar primoroso para suas navegações. Talvez Campos de Carvalho seja o único prosador surrealista brasileiro avant la lettre, exatamente por mostrar que o fantástico não precisa ser revelado por pirotecnias, efeitos de terror, etc; o ser humano por si só em seu micro cotidiano já possui uma estranheza convulsiva de erupção onírica. Em O Púcaro Búlgaro, Campos de Carvalho ainda evidencia que a viagem mental de localização poética é muito mais potente narrativamente do que

no surrealismo um potencial de estranhamento. Penso que o a viagem geográfica; os GPS não costumam conseguir captar a imaginação (imagem em ação) de escritores como estes. O principal aprendizado que tive com Campos de Carvalho foi: uma vez estrangeiro, se é estrangeiro em toda parte.

 

4. Você afirmou num texto seu publicado na Internet que “ o surrealismo ocupou uma espécie de entrelugar na literatura brasileira por ir contra os princípios de uma crítica oficial mais adepta a um modernismo de cunho nacionalista ou racionalista”.  Acha que algo está mudando na concepção  desta crítica ou que ela está ainda mais abrangente e tirana?  

 

Sim, o surrealismo foi por muito tempo abafado ou apequenado pelos nossos críticos literários mais famosos. Nossas ânsias construtivas, cerebrais ou nacionalistas não suportavam uma manifestação artística pós vanguardas históricas formada por artistas apátridas e ainda de cunho anarquista. O único surrealismo que foi lido aqui majoritariamente pelo nosso modernismo foi o primeiro surrealismo dos manifestos que é o mais radical, irracional e dogmático. Pouquíssimos foram os críticos que entreviram mais importante quando falamos de surrealismo é não reduzi-lo à categoria leviana dos ismos ou cairmos na armadilha de considerar que qualquer tipo de pensamento incomum possa se encaixar em uma categoria precipitada nomeada de “surreal”. Gosto da leitura de Octavio Paz que entende o surrealismo como uma poética, uma forma de visão para além da prática literária; e por isso sempre atual. Fundamentalmente a poética surrealista busca reagrupar conceitos que a noção ocidental de progresso iluminista teria separado, como: razão e emoção, vida e arte, natureza e cultura, primitivo e moderno, profano e sagrado, real e sonho, etc. É importante observar que surrealismo ocupou este entrelugar na literatura brasileira por ir contra os princípios de uma crítica oficial mais adepta a um modernismo de cunho nacionalista, regionalista ou racionalista. Na realidade existiram surrealistas no Brasil, mas dificilmente surrealistas do Brasil. Exemplos não faltam de artistas/escritores que possuem uma relação com a poética surrealista que não é nem dogmática e nem de uma influência vertical. Acho que, no Brasil contemporâneo, estamos numa época propicia para o surrealismo. Não porque o mundo tenha “virado” surrealista; ele sempre o foi. No entanto, atualmente buscamos novos modelos de apreensão da realidade. Já deglutimos coisas demais, a antropofagia oswaldiana já foi por demais lida e relida também. Não precisamos mais de nenhuma escola estética em especifico, apenas de brilhos esparsos e novas bricolagens, sem uma visão tirânica ou dicotômica tão fortemente marcada por um “nós” contra “eles”; sem as mesquinharias dualistas que o século XIX por tantas vezes propagou.  Na verdade os surrealistas não possuem a visão inocente de que apenas o sonho é real ou de que o real é sonho. Buscam uma combinação entre real e sonho a partir do composto alquímico da colagem. Através da poética da colagem as imagens conciliam opostos de uma maneira tensa que nunca se resolve: pela colisão de palavras raras, elementos plásticos são justapostos através de duas realidades aparentemente não conciliáveis, mas que ao se contraporem geram um terceiro significado reunido pelo olhar em estado “primitivo”, isto é, sem as amarras livrescas de uma memória enciclopédica. Por isto, continua tão atual, estamos numa época de colagens de colagens, ruínas de ruínas, em que cabe ao artista reordenar os dados importantes do passado, reinventando este passado também. Nunca como agora vimos tantas bricolagens, remontagens, samplers, refilmagens, etc.

 

5. Caso desembarcasse em Sófia, dia destes, qual a primeira coisa que faria? 

 

Caso desembarcasse em Sófia, dia destes, a primeira coisa que eu faria seria olhar fixamente para os olhos de alguma de suas muitas estátuas. Sei que Sófia é, na mitologia, a “deusa da sabedoria” e, por isso mesmo, olharia a deusa da sabedoria nos olhos e veria se ela é uma esfinge ou não. Como sou otimista por natureza, tanto que acredito em uma possível existência búlgara, acho que Sófia não me devoraria.  Caso desembarcasse em Sófia, dia destes, conversaria longamente em alguma praça principal com Sófia (a búlgara que primeiro pedisse para ser decifrada) sobre as novas dimensões espaciais descobertas pelos físicos atuais que poderiam ajudar a comprovar aquilo que Sófia já o faz milenarmente, esta deusa na arte de decompor seu espaço de acordo com sua coesão interna. Tenho certeza que o coração de Sófia se alegraria de sair, por instantes, de seu isolamento primitivo e solitário sem maiores ecos. Sófia é discreta e não pede desesperadamente que a amem, como Miami. Se tocasse os braços de Sófia não teria mais dúvidas de que ela é um animal marinho que vive na terra e gostaria de voar. No dia em que aterrissar em Sófia tentarei ser o primeiro astronauta realmente lunático a chegar finalmente na Lua e embaralhar sua geografia.

 

“(…) Com muito mais sóis raiando do que o normal, o único carrossel que nos resta é este temporal de úteros leves, chuvas estatísticas que nos lavam o suor das madrugadas(…) Com desobedientes unhas crescendo, nossos cabelos vão entrando em erupção como jardins respirando, podendo surgir a qualquer momento à reveleia de seus espectadores (…)”. ( fui à bulgária procurar por campos de carvalho, Augusto Guimaraens Cavalcanti).

 

 

 

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FESTA NA USINA NUCLEAR: ENTREVISTA COM RAFAEL SPERLING

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Festa Na Usina Nuclear de Rafael Sperling é um livro composto por 25 micro contos. Bizarrices, non senses, cenas estapafúrdias, crueldades de todas as ordens e, sobretudo, uma crítica feroz e lúcida aos valores sociais vigentes, são seus temas recorrentes.

 Entrevistei o escritor carioca quando escrevia matéria sobre novos autores surrealistas publicada em quatro de maio pela Ilustrada:

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/05/1272961-jovens-autores-se-enredam-por-um-novo-surrealismo.shtml.

 

Eis a íntegra desta entrevista e um trecho do livro a seguir: 

1. Como é o seu processo criativo?  Usa ou já usou algum aditivo para provocar  inspiração?

Não escrevo com uma frequência muito regular. Às vezes escrevo muito em pouco tempo e depois passo séculos sem escrever nada. A maior parte dos meus contos é escrita de uma vez, num fôlego só; tenho vários contos incompletos pois comecei a escrevê-los e tive de interromper a escrita, em geral por estar com muito sono, e depois não consegui terminá-los, por ter perdido aquele estado mental no qual me encontrava. Geralmente escrevo de madrugada, já que esse estado mental levemente alterado pelo sono me traz boas ideias (pelo menos no meu conceito do que é uma boa ideia). Agora que estou trabalhando em algo mais longo, uma novela (ou romance curto), o processo é um pouco diferente, ainda estou me adaptando ao fato de ter de conviver com o mesmo mundo e os mesmos personagens por um bom tempo.

E embora possa não parecer, nunca usei nenhuma droga para escrever ou compor músicas, gosto de trabalhar o mais sóbrio o possível.

Embora muitas das situações que descrevo sejam estapafúrdias, grande parte das ideias surge de situações do cotidiano, de conversas ou coisas que li na internet. Aliás, é incrível a quantidade de infomações, notícias, e videos grotescos a que temos acesso na rede. Nunca os seres humanos tiveram acesso a tanta bizarrice, violência e pornografia. Sabe-se lá no que isso vai dar. Imagino que isso certamente muda a maneira das pessoas pensarem.


2. Em Festa Na Usina Nuclear há um tema recorrente que é uma espécie de crítica sarcástica ao trabalho  (em ÉZ, por exemplo). Poderia falar um pouco sobre esta sua obsessão?  Você é partidário do ócio?

Não sou exatamente um partidário do ócio. Creio que essa crítica ao trabalho, presente em alguns dos contos, faz parte de uma crítica mais ampla, que é em relação a como o mundo funciona. Tento nos contos descontruir o mundo como ele funciona para, a partir daí, criar novos modelos, padrões e significados.

O mundo de Éz pode ser visto como uma inversão do papel que o trabalho ocupa em nossas vidas. Sendo, a princípio, simplesmente uma inversão, fica evidente como a maneira que lidamos com trabalho é absurda.

Nos contos, brinco com isso de alterar modelos e padrões não só para criticar algo, mas simplesmente pelo prazer estético de fazê-lo, o que é o mais comum. Em geral só vejo que essas inversões ou mudanças têm alguma relação com o mundo real quando alguém me aponta, pois geralmente não paro para pensar nisso enquanto escrevo.


3. Quais foram as piores críticas que recebeu por Festa Na Usina Nucler?  E as melhores? 

Olha, uma leitora deixou um comentário em meu blog (que foi onde eu primeiramente postei a maioria das histórias do Festa na Usina Nuclear) dizendo que eu era um “porco nojento” e “um ser desprezível, nojento, doente, tarado que devia estar, no mínimo, preso”. Minha avó também deu uma lida no meu livro, e não falou nada, rs.

Mas, felizmente, o retorno foi bem positivo. O Ronaldo Cagiano me citou como um dos destaques da nova safra de escritores em sua coluna do jornal Diário da Manhã (Goiânia) e o jornal Rascunho colocou em uma matéria o meu livro como um dos destaques da recente produção de contos no Brasil.Também recebi elogios de escritores que admiro, como o Paulo Scott, Ana Paula Maia, Marcelino Freire e João Gilberto Noll, que podem ser lidos na contracapa do meu livro desde sua edição mais recente, além da orelha, escrita pelo André Sant’anna.


4. Você se colocaria no front da “nova literatura surrealista brasileira” ?

Olha, não sei bem. Não que o rótulo de “surrealista” me incomode exatamente, mas não sei se o que escrevo se encaixa muito nisso. Pelo menos não escrevo nada com uma intenção de “ser surrealista”. Acho que o que escrevo é surreal mais no sentido popular ou coloquial da palavra, que tem mais haver com o nonsense, o grotesco e o absurdo, do que por se relacionar diretamente com os surrealistas franceses do início do século XX. Então, pensando dessa maneira, poderia dizer que estou nesse front, sim.


5. Nas suas influências literárias você não cita Campos de Carvalho, embora muitos trechos de seu livro tenha me remetido à prosa do escritor mineiro. Já o leu? O que acha dele?

Sim, já li, gosto especialmente d’O Púcaro Búlgaro, acho muito engraçado, genial.Não o considero como uma influência, pelo menos para o Festa na Usina Nuclear, pois quando o li já havia escrito a maior parte dos contos do meu livro. Embora eu veja que há alguma relação, confesso que penso ser pouca, principalmente em termos de linguagem. Acho o Campos de Carvalho bem mais rebuscado, enquanto eu tento seguir um caminho quase oposto na construção do texto. Diria que vejo mais relação, por exemplo, com o Murilo Rubião, e mais pelo fato de me lembrar o Kafka (esse sim uma grande influência pra mim) do que pelo “surrealismo” das histórias. Mas essa é a minha maneira de ver o que eu mesmo escrevo, logo não sei se deve ser levada em conta.

 

 

“(…) A usina estava belamente decorada com alcachofras e fotos de pessoas sendo mutiladas. A música que o DJ tocava era o som de porcos e formigas, mixados ao som de ovos sendo lançados contra uma parede de gelo e de uma pessoa roncando (…)  ( Festa Na Usina Nuclear, Rafael Sperling)

Mais informações no blogue do autor : www.somesentido.blospot.com

 







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SURREALISMO E LITERATURA BRASILEIRA: ENTREVISTA COM CLÁUDIO WILLER

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Íntegra da entrevista que fiz com o poeta, ensaísta , crítico e tradutor Cláudio Willer sobre a difícil relação entre o surrealismo e a literatura brasileira. Faz parte da matéria publicada no último sábado, quatro de maio, pela Ilustrada sobre os novos autores surrealistas brasileiros: 

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/05/1272961-jovens-autores-se-enredam-por-um-novo-surrealismo.shtml

 

1. Porque a cultura brasileira em geral resiste tanto à estética surrealista?

Acho que não é apenas à ‘estética’ surrealista – é ao surrealismo todo, como movimento de idéias, como atualização da rebelião romântica e tentativa de síntese do ‘transformar a sociedade’ de Marx e do ‘mudar a vida’ de Rimbaud.  Ainda não perceberam o que observou Octavio Paz em O Arco e a Lira, que “o surrealismo não é uma poesia, mas uma poética”; e, “mais ainda, e, sobretudo, uma visão de mundo”. E, de modo mais enfático: “o surrealismo é um movimento de liberação total, não uma escola poética”. Nem a advertência de Julio Cortázar contra enquadrar surrealismo em uma classificação periódica de escolas e movimentos literários: “Higiene prévia a toda redução classificatória: o surrealismo não é um novo movimento que sucede a tantos outros. Assimilá-lo a uma atitude e filiação literárias (melhor ainda, poéticas) seria cair na armadilha em que malogra boa parte da crítica contemporânea do surrealismo.”

 

2. Existe uma tradição literária surrealista brasileira?

Talvez a estejamos formando, nas décadas mais recentes, de 1960 para cá. Autores como Roberto Piva, Sergio Lima, Afonso Henriques Neto, eu, e mais recentemente Floriano Martins talvez estejamos constituindo essa tradição, ao sermos mais lidos e circularmos entre poetas novos. Há grupos que se apresentam como surrealistas, de 2000 para cá. Até então, o que tivemos foram casos isolados, autores importantes que declararam ou exibiram relação com o surrealismo: em poesia, Jorge de Lima, Murilo Mendes e Manoel de Barros; em prosa, principalmente Campos de Carvalho.

Motivos da recusa? Cientificismo, tradição positivista, um arraigado cartesianismo; catolicismo; um nacionalismo algo estreito. Expoentes do nosso modernismo, a começar por Mário de Andrade, foram contra. Formalismos de grande prestígio, como a poesia concreta, se apresentaram como anti-surrealismos, como explicitamente opostos a essa vertente.

 

3. Como você definiria a escrita surrealista?

Como expressão não-discursiva; negação e superação da lógica cartesiana e aristotélica; tentativa de síntese da contradição de sujeito e objeto, linguagem e vida; exercício de liberdade plena, mas sem descartar o rigor.

 

4. No atual panorama literário brasileiro configura-se uma “mandala surrealista”?

Está-se chegando lá, me parece. Há diversos autores novos, inclusive esses que você está examinando, com afinidades evidentes com o surrealismo. Observei um vivo interesse, nas ocasiões em que dei cursos e oficinas literárias tratando de surrealismo. Vários autores novos, tendo Paulo Sposati Ortiz como instigador mais ativo, vêm criando poemas coletivos, feitos de imagens.

 

 

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SÃO PAULO, A CIDADE DOS CEGOS

A barbárie domesticada é o único enfeite visível para quem vive numa cidade como São Paulo.

 

Se eu tivesse que definir numa só palavra o que permeia e une a esmagadora maioria da população paulistana diria, sem pestanejar: a cegueira. São Paulo é uma uma cidade desprovida de humanidade e também de humanos. É simples constatar a cegueira epidêmica que atinge o povo. Seguem cinco exemplos (existem centenas) baseados em experiências cotidianas.

 

1.Experimente andar sobre uma das milhares de calçadas estreitas e esburacadas (leve, é claro, sua caixa de primeiros socorros, uma queda é mais do que provável) dos bairros carregando alguns sacos de supermercado. A certa altura um cego estará transitando na direção oposta à sua. A muitos metros de distância já fica evidente que se você com suas sacolas e o cego seguirem em frente haverá uma colisão. Repare que o cego não desviará nem um milímetro do seu caminho. Será você com suas sacolas pesadas que terá que deixa-lo passar mesmo que tenha que adentrar o asfalto selvagem e ser abalroado por um ônibus em alta velocidade.

 

2. Estacione seu carro numa casa de comércio cujo estacionamento é reduzido e é obrigatório parar em fila dupla. Quando você quiser ir embora um cego já terá parado o seu carro atrás do seu e você terá que espera-lo por tempo indeterminado até que ele acabe de fazer suas compras. Cuidado: depois de meia hora esperando, não reclame do cego quando ele voltar. Primeiro porque ele não se deu conta do que fez. Segundo e, principalmente, porque ele pode estar armado e a desgraça poderá ser ainda maior.

 

3. Vá fazer compras num supermecado com corredores estreitos. A certa altura um cego estará com seu carrinho ou parado ou vindo em sua direção. No primeiro caso, bastaria uma simples manobra do cego para que você pudesse passar. Então você espera ele perceber que seu carrinho não pode avançar porque o dele está impedindo. É uma situação em que a solução, na grande maioria dos casos, está em você fazer meia-volta e procurar outro caminho. No segundo caso, semelhante ao da calçada, o melhor também é encostar o seu carrinho entre caixas e gôndolas e deixar o cego passar. Caso contrário, haverá, com certeza, colisão de carrinhos.

 

4. Os cegos adoram dirigir seus automóveis. Quanto maior e mais caro, mais cego é o motorista. Tente entrar com seu veículo modesto numa avenida. Mesmo que o trânsito esteja lento nesta avenida, o cego motorizado não dará passagem de forma alguma. Eis uma lei que os cegos levam a sério: jamais dê passagem a ninguém. A menos que seja uma ambulância do Samu com uma sirene pra lá de estridente e com dois enfermeiros batendo sobre o capô, gesticulando e berrando. Caso contrário, cegos não dão passagem.

 

5. Quando o ônibus chega no ponto, depois de algum tempo de espera, os cegos sempre estão loucos para serem os primeiros a embarcar. Deixe-os entrar à sua frente e perceba as diversas reações. Repare que ninguém lhe agradecerá e que um ou outro ainda pode te encarar com aquele olhar de quem está dizendo “este cara só pode ser viado”.  Lá dentro do ônibus, os cegos brigam o tempo todo por mais espaço caso estejam de pé. Pouco importa se você está na ponta do pés com a cabeça enfiada entre as grades, equilibrando uma mochilha com a mão direita e o corpo com a esquerda. O cego está sempre zelando pelo seu próprio espaço.

 

    

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NÓS, OS SUSPEITOS

Na nuvem de indagações e conclusões que se seguiu ao atentado terrorista em Boston, semana passada, uma delas me parece digna de reflexão. Foram entrevistados dezenas de amigos e parentes dos irmãos Tsarnaev a respeito de suas índoles, caráteres e temperamentos.

 

Concluiu-se que o irmão mais velho tinha o “perfil terrorista” porque há anos atrás teve atritos físicos com sua ex-esposa e gostava de esportes violentos tendo inclusive manifestado seu desejo de fazer parte da equipe de boxe dos EUA nas próximas Olimpíadas.

 

Quanto ao mais novo, a conclusão que se chegou é que nada do que se apurou a seu respeito indica qualquer indício de violência ou desajuste social. Pelo contrário, seus amigos foram unânimes em afirmar que Dzhokhar, que ainda sobrevive, é um rapaz simpático, muito educado e extremamente querido tanto pelos vizinhos de seu bairro quanto pelos colegas de universidade.

 

Alguns dos entrevistados diziam-se surpresos e chocados com a revelação de que o jovem checheno estava diretamente ligado à ação que matou dezenas e feriu centenas de cidadãos. E, ato contínuo, concluíram que não se pode confiar em mais ninguém hoje em dia. Que um sujeito de aparência  angelical e comportamento normal também é, potencialmente, um suspeito de praticar atos terroristas.

 

Aqui no Brasil, que convive à sua maneira com seus diários atentados terroristas e sua não declarada guerra civil há muito tempo, a síndrome do suspeito já virou uma epidemia.

 

Basta o sujeito estar andando distraidamente numa calçada e um carro cruzar a sua frente para adentrar uma garagem, para que o olhar paranoico de quem está no interior do veículo comece a ser disparado.  Se o sujeito estiver acompanhado de outros e todos forem pardos ou negros e estiverem usando bonés, pronto, já se criou um motivo para começar o genocídio. O motorista pode, neste caso, até alegar legítima defesa.

 

A síndrome do suspeito é uma decorrência da síndrome da paranoia coletiva. Só que a primeira é bem mais complexa e incurável. Ela tem como grande aliada diversos programas disponíveis na mídia e, sobretudo, alguns noticiários televisivos.

 

Diariamente, durante muitas horas, estes âncoras-carrascos-fascínoras que comandam este tipo de programa aterrorizam a população com suas mensagens sensacionalistas, histéricas e facciosas criando uma sensação de que estamos vivendo numa época em que basta sair de casa para morrer tragicamente. E, mensagem ainda mais grave e abominável , a de que todo ser humano é um suspeito em potencial. Exceto, é claro, eles próprios.

 

É claro que estamos vivendo numa sociedade violenta, tão violenta quanto injusta, excludente e desigual. Mas a propagação desta histeria coletiva causa tantos transtornos quanto a própria violência.

 

A sensação de que a princípio somos todos suspeitos – seja em solo americano, brasileiro ou italiano, me parece algo realmente tenebroso. E, em nome de nossa saúde mental, não podemos aceita-la de maneira nenhuma, sob o risco de nos tornarmos uma sociedade irreversivelmente doente.